terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Quando as Cigarras Voltam





Todos os lugares podem ser identificados por suas paisagens, pelas formas de suas edificações, pelas silhuetas de suas vias, calçadas, praças. No entanto, alguns lugares vão além, e se caracterizam também por experiências sensoriais não-visuais, como suas sonoridades ou seus cheiros. Pense na Lapa numa noite de sexta, no Largo de Madureira depois das dezessete horas, e vai escutar esses lugares; ou na orla da Bica, Icaraí ou Copacabana, e as maresias e até o odor do pescado logo chegarão a você. Pois bem, além de sua paisagem para mim inesquecível, o lugar onde me fiz e moro é, e sempre foi, identificado por uma experiência já conhecida e bastante impositiva: o calor. Quando dezembro vai se abrindo, então, reconhecemos que ser banguense é saber adequar rotinas e paixões aos mais altos graus Celsius dessa urbe tropical.

Outro dia, sinalizei que as cigarras voltavam a ganhar o fim de tarde de onde moro. Ontem, quem retornou foi uma dessas intempéries semanais de todo verão: as quedas de energia. Com elas, voltam as andanças pela casa de madrugada, as garrafas de água no pé da cama, o banho gelado a qualquer hora do dia e da noite. Com as quedas de energia, penso logo que “pode ter sido linha de pipa”, e abro a janela, às vezes já no horário da novela, e vejo a molecada sobre as lajes “arrastando” ao longe, rebolando as rabiolas sobre copas das árvores e, inevitavelmente, sobre postes e a fiação elétrica. Catiços encantadores eles são!

Cabe tudo nesse calor. O asfalto, fervendo, desencoraja andanças, mas estimula “molhar a rua” acompanhando os constantes banhos de borracha, e as crianças ficam doidas nessa refrescância esbanjadora. Os almoços tendem a derrubar os gulosos no geladinho dos pisos de varandas, ou ainda sobre lençóis, pedaços de papelão e jornais em qualquer canto, mas também estimulam o retorno das saladas de alface, cenouras e beterrabas raladas no que parece uma aquarela de sabor, um franguinho magro com quiabo, os tomates frescos no azeite, a couve no alho, as corvinas e sardinhas ao forno... resolve-se a “lombeira” da tardinha assim! Junto destes, e nas frações de fome e sede de um dia corrido, as laranjas cortadas em quatro gomos, os sacolés de jaca, as limonadas em gelo e colher de açúcar, as rodelas de abacaxi em pratos na geladeira. 

Cães e gatos se escondem sob os carros, atrás das plantas, embaixo das marquises. Em qualquer pedaço de sombra já se encontra um bicho preguicento, uma tigela de água fresquinha, um repouso na existência. 

A beleza de Bangu é mais quente. Quando mancebo, o buço molhado das meninas e os cabelos presos em coque, em tranças, em rabos-de-cavalo caídos nos ombros, já me indicavam os rumos de uma estação que expande as gentes como expande as portas, e móveis, e azulejos que não cessam de estalar de madrugada. O frescor de sacos de gelo encostados nas dobras das pernas, na nuca e sobre os braços contrai o que antes estava dilatado, refaz o que antes se dissolvia nas miragens em névoas de sol, conduz a pressão cardíaca ao estímulo de sair de casa e ver a rua. 

Quando caem as luzes e voltam as cigarras, eu volto ao infantil corpo desidratado de tanto futebol entre amigos; retorno aos bichos de luz mergulhando atrás de seus reflexos em vasilhas d’água; avanço sobre o primeiro e desavergonhado sexo desassociado do tempo, da cama, do amor, pois não é possível romance no verão banguense, e os espasmos e urros escorregam entre barrigas e coxas aquecidas pelo mormaço dos desejos. Vou voltando, voltando, e me vejo às noites de sono ao lado de minha mãe, sob a amendoeira do quintal, engolidos pelo céu mais claro e gigante desse Rio de Janeiro bestial. Eu volto ainda mais um pouco, e sinto as enormes gotas de chuva levantando o bafo do chão, beliscando minhas costas, me fazendo correr para casa sem vontade nenhuma de chegar. 

***

Imagem retirada de: http://tinyurl.com/kyhtz3e


Nenhum comentário :

 
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.