sábado, 20 de dezembro de 2014

O Lado Norte do Maciço




Nem mesmo as canções do Roberto... Uma cidade de gente diversa demanda muitos lugares de características bem distintas, e o Rio é assim. A TIJUCA, pedaço generoso do Rio, também o é. A noite entre a floresta, as torres, favelas, túneis e viadutos que lançam os desavisados no lado norte do maciço não cansa de reinventar-se. Aquele era um novo local, descoberto quase por acaso entre amigos dos cursos de Humanidades. O povo das Exatas não gostava muito dali, preferia algo com mais burburinho, mais passantes desfilando, não era muito aficionado a mesas, músicas e bate-papos adornados por pernas de fora em roupas desbotadas e calçados encardidos. R. era desse tipo. Estando ali, procurava ser ativo nas conversas por vezes frívolas, nos muitos assuntos engajados e desconstruções de toda ordem, mas de um arrebatamento e aconchego desmedidos. Um gato perambulava entre as cadeiras, e todos os pés lhe eram mansos porque já lhe conheciam de outras noites ébrias. V. sabia das preferências do companheiro, mas supunha que aquele novo bar perto de casa – com cerveja gelada e barata, doses generosas de conhaque de baixa qualidade, ambiente anárquico, de um charme bem peculiar nas pinturas, canecas e ornamentação das paredes, uma raridade nessas ruas de oitis, cássias-rosa, figueiras e sibipirunas – pudesse revigorar aquele coração desassistido. Todavia, nem mesmo as canções do Roberto no aparelho que só tocava antiguidades puderam ajudar o rapaz...

“Ele não gosta da Tijuca, não gosta desse bar bonitinho, não gosta de nada”. R. nunca havia perdido o fôlego subindo a General Roca. Nunca sentou no meio-fio da Carlos Vasconcelos fitando cães e pimpolhos em passeio perto do rio. Nunca dispensou cansaços na Saenz Peña e seu laguinho. Não jogou bola no Batista, não desejou o Alto da Boa Vista, nem viu batizado na Igreja de São Francisco. Jamais beijou e sorriu na Xavier de Brito. Da Usina, coitado, sequer lembrava. Não sambou no Salgueiro, não aniversariou no Buxixo, nem madrugou na Muda. Achava que o Rio de Janeiro era um conjunto de vontades segregadas, soltas entre as rochas e o mar, pálidas quando além do Maracanã ou "do lado de lá". Mal sabia ele que por não rodar no Quinze, não beber direito e não saber se perder, perdia, de novo, a mais rica companhia desse antigo lote jesuítico. Não respeitou a Tijuca. Nem se deixou alcoolizar pelas suas muitas possibilidades de descer do play e abocanhar a rua. Do mesmo jeito que subiu a Barão de Mesquita, desceu a Conde de Bonfim para nunca mais voltar, nem mesmo se a rua Uruguai desembocar numa praia, nem se o America reencontrar os títulos, nem se o funk do Borel voltar a ser admitido.


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Imagem: Isabela Bastos / O Globo.


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