sábado, 20 de dezembro de 2014

A Praça


Quando o calor vai estendendo dezembro, já não há mais candura em página alguma. A livraria era pequena e, apesar de bem cuidada diariamente, sentia-se no ar, que circulava por entre as estantes, escadas de alumínio e banquinhos de madeira, a secura da poeira trazida com o vento tímido da rua da Constituição. A expansão dos negócios na área da Praça Tiradentes trouxe consigo um vai-e-vem mais intenso de transeuntes e automóveis nas ruas do entorno. Trouxe também reformas aos sobrados, “recapeamento da massa asfáltica das vias” – como dizia a placa da Prefeitura -, e uma pasteurização na vida de quem não dorme cedo. Do passado recente, quando, por ali, viviam mulheres e travestis prostituindo-se, e catadores de papelão resignando-se, restaram a estreiteza das caçadas e o uivar de cachorros vadios, estes cada vez mais raros. A livraria tomou o lugar de uma serralheria que costumava servir aos demais comerciantes do Centro. Se o motivo da mudança foi o predomínio das prateleiras de plástico, o monopólio dos serralheiros da Gamboa e da Saúde nos negócios da região central do Rio de Janeiro, ou apenas a decisão onipotente do antigo artesão em encerrar sua vida entre tábuas ruidosas, fuligem e farpas cada vez menos incômodas em suas ásperas mãos, não se sabe. O que se evidenciava era a substituição de antigos e tradicionais comércios daquela outrora degradada área do Centro por atividades que complementavam o que, dia após dia, vinha ganhando destaque ao redor da praça: teatros, bares e restaurantes, casas musicais noturnas e centros culturais, hoteis, livrarias e antiquários, vida universitária durante o ano ativo, vida carnavalesca nos verões exaustivos e invencíveis.

“O Centro está mudando depressa”, pensa. Já não frequenta mais o bar da juventude mais bonita e interessante que esta cidade pode produzir. Ao longe – dos amigos, dos livros, do Centro –, ele já cansou de ler o mundo, já não quer mais expandi-lo, nem quer mais assisti-lo mudar tão abruptamente. Por dentro, ele quer voltar ao centro. Quer fazer novos amigos e beber o vento. Quer as cidades e as pessoas por perto, mas cada qual a seu tempo. Quer ter as livrarias de outros tantos sonhos que conversam com os dele como se fossem de mesma matéria, de igual incompletude, do mesmo maldito momento.


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