sexta-feira, 21 de novembro de 2014

"Não se mexa!"


Para mim, todos os elementos de vida e urbanidade periféricas estiveram presentes no dia de ontem.

Imensidão de gente negra com cores e cabelos diversos. Apartamentos replicados aos milhares em ruas desbotadas, com sutis adornos de flamboyants, mangueiras e amendoeiras. Mato nos cantos do cimento acinzentado. Moleque soltando pipa da janela, sol na cara, calor no dorso, olhos audazes. Samba atropelando o cotidiano, louvando etnias, resgatando Áfricas, instigando feriados, aproximando os sexos, calando os conflitos, dando força ao espírito. Jongo: iniciando os mais novos, encantando os antigos. Crianças soltas na terra do campinho. Cervejas sem fim, frituras também; grêmio recreativo mantendo orgulho e muros de trens fazendo reféns.

No escorregar da madrugada, uma rua larga e escura, casais se apertando, um muro alto de clube decadente, discussões na esquina, vida insegura, passos preguiçosos num caminhar de meio-fio. Vem um carro espertíssimo e saca um ferro automático. Rouba o laia-laiá, leva o balacobaco, ganha com estupidez o festejo, os contatos, os trocados.

Na delegacia, por fim, o triste resultado de quem jamais teve feriado: Maria da Penha, furtos esfomeados, drogas ilícitas e um punhado de ódio, de desdém, de nenhum cuidado – desde sempre, amém. O táxi ambicioso ainda tentou extorquir, mas este, felizmente, foi derrotado. Desarmei o frenesi dos ombros e dormi na graça do banho tomado.

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