sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Miserere para um Clube de Regatas




Eles não querem falar do Flamengo... Eu quero, então. Vou falar porque, neste mundo de conflitos diários, de lutas incessantes pelo direito de existir e de se impor, o Flamengo me encoraja. Não pela sua imensa torcida, tão imensa que desconfio ser obra do demônio, mas pela sofreguidão de cada crente rubro-negro. É uma ânsia por imensidão, pelo tamanho de sua torcida, que faz com estes homens e mulheres que o querem com assiduidade, de todas as idades e lugares, se desconectem de qualquer traço de mediocridade. O Flamengo não é medíocre, jamais será. É um impulso existencial na vida de cada flamenguista ortodoxo e, por ser o clube mais agraciado pelos dinheiros e representações, também na vida de seus rivais, que acotovelados são por essa massa elétrica em procissão desde a primeira infância – ainda nas brincadeiras na rua, mesmo nas tardes do catecismo, sempre na correria imaginativa do pátio escolar onde todos deveriam professar o mesmo credo, e não o fazem.

Meu primeiro jogo do Flamengo foi em 1992. Fui levado pelo meu pai, botafoguense, para assistir a Campo Grande x Flamengo, no saudoso estádio da rua Arthur Rios, o enorme e pentecostal Ítalo Del Cima*. Aquilo era um evento único, com o ótimo time rubro-negro de então, campeão carioca e recém campeão brasileiro, perto de casa, na longínqua (e verdadeira) Zona Oeste carioca. Do alvoroço da chegada, com Fuscas, Del Reys, Opalas, Brasílias e Variants estacionando "à moda caralho" (piedade de nós!) na beira do rio que divide as mãos da rua, já me peguei surpreso pela astúcia do meu pai – impaciente e expansivo desde sempre – em nos livrar das filas e vendedores, das imagens e amuletos, infiltrando-nos com dois ingressos e um biscoito que parecia isopor pelo portão do estádio. (Aqui, uma pausa: coisa gratificante lembrar que fui iniciado no futebol ainda nos tempos de “estádios”, verdadeiros templos, e não dessas “arenas”, lugares profanados). Abobalhado que sou, passei todo o jogo reparando na liturgia do campo: nas redes dos gols, na entrada e saída dos juízes, nas placas de publicidade, na torcida enchendo a arquibancada de cimento, nos reservas aquecendo, no vai e vem dos vendedores de picolé e cerveja (sim, bebia-se de cálice cheio vendo jogo naquela época), nas crianças que passavam e me encaravam (porque, né, criança adora encarar outra criança). O Flamengo venceu por 3 a 0, não vi nenhum dos gols, tomei cinco tapas na nuca do pessoal ao meu redor, e a partir dali assimilei que deveria ser fácil ser rubro-negro: time de todo mundo, está sempre ganhando, moleza! Foda (piedade!) era ser Fluminense, e isso me tornava incrível, um místico. Fui para casa mais apaixonado por futebol e decidido a não me deixar envolver e abater pelo Flamengo. Cumpri, antes dos quinze, com um rigor de ermitão, as duas expectativas.

Passados mais de vinte anos, voltei a ir a um jogo por causa do Flamengo. Desta vez com irmã e sobrinho, rubro-negros, fugitivos de minha capela, entregues ao vício, enfeitiçados por esse oráculo. Era clássico, contra o Botafogo, no Engenhão (meio estádio, meio arena, lugar secularizado)**, e as filas para ingressos em preto e vermelho desanimavam. Fomos, pois, para as filas em branco e preto, e entramos com facilidade, o que não deixou de ser triste. Segundo tempo, Flamengo vencendo por um tento, e sua organizada mais conhecida, do lado oposto de nossos assentos (pois aquilo não é arquibancada), fazia uma festa desmedida, injusta, cruel. O sobrinho, batizando-se nessas idas e vindas atrás de marmanjos e bolas e gente histérica, cobria-se com o véu e as luzes do flamenguismo: afônico, perplexo, contentíssimo. Era a primeira vez desse João mais novo, e o Flamengo venceu. Ali, confesso, fui feliz pelo clube de Judas Tadeu, sem exigir nada em troca, apenas porque vi um garoto que é meio-eu entender-se em futebol, descobrir-se numa combinação de cores ímpares, assegurar-se que até o fim da vida é aquilo ali que ele vai defender com um ardor corânico, uma disciplina talmúdica, uma paixão evangelina.

Ainda não liguei para o João depois do que o ocorreu na última quarta-feira***. Muitos amigos, grandes amigos, andam caminhando de canto, fugindo do sol, escurecendo as vontades. Parece que deixaram de crer, nem velas querem mais acender. Tudo porque a queda de quem sempre quer mais alto chegou. O Flamengo é assim, oras. Não fosse, pelo tamanho da torcida que tem, seria medíocre, como tantos amores e crenças que desaparecem com a alvorada da razão. A queda sempre chega, ainda que se volte a subir, ela chega. É preciso ser imenso para admiti-la e tolo o bastante para fazer dela estímulo a um recomeço igual. E nós, futeboleiros, somos todos assim: tolos, insistentes, histéricos, penitentes, um bando de “João”. Flamengo, tua glória é lutar. Ainda que seja comigo, ainda que me trazendo desgosto, ainda que me roubando a descendência. Sigamos, rivais. Amém. 


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*Ficha do jogo: 
Campo Grande 0 x 3 Flamengo
Competição: Campeonato Carioca (Taça Guanabara)
Data: 03/09/1992
Estádio: Ítalo del Cima
Time: Gilmar, Charles Guerreiro, Gotardo, Rogério, Piá, Uidemar, Júnior, Júlio Cesar, Zinho (Marquinhos), Paulo Nunes (Marcelinho) e Gaúcho.
Gols do Flamengo: Júnior, Júlio Cesar e Gotardo.
Público: 8.127

**Ficha do jogo:
Flamengo 1 x 0 Botafogo
Data: 17 de fevereiro de 2013
Competição: Campeonato Carioca (Taça Guanabara)
Estádio: Engenhão
Time: Felipe, Léo Moura, Wallace, Marcos González e João Paulo; Cáceres, Ibson (Cléber Santana) e Elias; Carlos Eduardo (Rodolfo), Rafinha e Hernane (Igor Sartori).
Gol do Flamengo: Hernane.
Técnico: Dorival Júnior.
Público: 25.359
Renda: R$ 855.270,00


***Ficha do jogo:
Atlético-MG 4 x 1 Flamengo
Data: 5 de novembro de 2014
Competição: Copa do Brasil - Semifinal
Estádio: Mineirão - Belo Horizonte - MG
Time: Paulo Victor, Léo, Wallace, Chicão e João Paulo; Cáceres, Márcio Araújo, Canteros e Éverton (Mattheus); Nixon (Élton) e Eduardo da Silva (Luiz Antônio).
Gol do Flamengo: Éverton.
Técnico: Vanderlei Luxemburgo.
Público: 41.352 pagantes
Renda: R$ 4.615.660,00

Imagem retirada de: http://tinyurl.com/nln43vh


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