quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Foi Tiro




Era dia de Carnaval. E o paraquedas caprichosamente confeccionado com uma sacola plástica da Sendas e com fios de nylon de um saco de laranjas, preso a um soldadinho de borracha descia, lentamente e estufado pelo vento, sobre as dezenas de mãos da infância descamisada, suja e insistentemente feliz do sopé da Serra do Gericinó. As mães tricotavam queixumes e indelicadezas sobre as vidas pregressas de quem ali não estava, ao mesmo tempo em que bebericavam uma cerveja semigelada, refrescante, amarga e útil feito as manhãs imensas separando caroços de feijão no chão da sala, ao som do Chico, à luz do sol tímido de janela ornada. Era, insisto, dia de Carnaval.

Como que escapasse de um raio, o filho do Tião saltou na calçada, e, raspando-lhe a perna magra e arranhada de subida em galhos, passou um carro vermelho dirigido por uma bruxa. Lembro bem: não era clóvis, nem pai-joão, era uma bruxa. No banco traseiro, três bate-bolas. Janelas abertas, motor aos roncos, rasgaram a rua empoeirada rumo à cocheira lá no fim da vista, além da curva, depois da casa do Tião. Passaram pela roda de samba de fim de bloco e quase levaram o bumbo, quase bateram num muro, quase criaram tumulto. Mães e crianças, em susto, já se juntavam, e as vizinhas murmuravam especulações, “Mas como pode!”, “Logo hoje!”, “Esse bando de safados!”. Depois de um freio, uns tantos segundos, e os primeiros barulhos, secos e atravessados. "Foi tiro, hein" - alguém sugeriu. O tempo estancou. Os cães reclamaram. O povo na roda cadenciou. Logo em seguida, mais estalos: mais tiros. Correria e batidas de portão, olhos arregalados e puxões de camisas para dentro dos becos e vilas. O samba parou e o povo sumiu. E era, como disse, dia de Carnaval.

O ronco do carro na rua de trás denunciava a fuga. Tião vinha desassistido, pálido e cambaleando nas calçadas, sem força nas pernas e ébrio de dez horas, uma pena só. Coitado, ele podia mesmo beber litros: trabalhou no sábado e na segunda, e hoje, justo aquele hoje, Carnaval, mataram seu irmão numa covardia e tanto. Antes guardasse a bebida para a honra do defunto. Antes tivesse dado um gole ao santo.

“Eu sei quem é essa bruxa, essa desgraçada dessa bruxa....” – e caiu, se arrastando num poste pintado de verde-e-amarelo, sobre os cacos de ardósia que enfeitavam a entrada da pensão do quinze. O filho do Tião, escondido entre botijões de gás e cestas de pão-francês na casa do moço da birosca, nem viu nada. Ainda bem que levaram o menino para dentro e por lá desconversaram, colocaram o moleque na frente de uma Tv e lhe deram um copo de suco de manga-espada.  O Tião, coitado, perdeu um irmão num dia de Carnaval num acerto de contas. O filho do Tião, azarado, perdeu o padrinho tão novo sem nem se dar conta. Tião não chorou no enterro, não guardou as Cinzas, nem esmoreceu na quaresma. A Mocidade Independente venceu, enfim, e ele deu de ombros. Nem pareceu Carnaval. 

***

Imagem retirada de: http://tinyurl.com/pybd7xy

Nenhum comentário :

 
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.