segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Do Casulo Banguense - Planta


Há muito tempo, talvez um ano, meu pai plantou uma muda num desses vasos de barro que se coloca em quintais ou varandas. Essa planta é só mais uma entre tantas e tantas que meus pais colocaram em vasos no corredor que liga a entrada da sala ao portão. Esse pedaço da casa ficou com cara de sítio: denso verde, fresco, úmido, cheiro bom.

Pois bem. A tal planta cresceu absurdos, e para cima. Virou uma árvore "magrela", mas bem alta. Alcançou o pequeno terraço que temos aqui no segundo andar da casa, onde vivo.

Hoje, depois de muito tempo sem tomar sol no terraço para reanimar e tirar a preguiça, reparei que a planta não para de florescer e atraiu um monte de abelhas. Muitas mesmo!
De súbito, pensei: não bastassem as flores e folhas miúdas que o vento agora empurra para os cômodos do segundo andar, terei que conviver com abelhas?

É isso. É isso que se chama amargura. A natureza primaveril invade minha casa e a primeira coisa que penso é em como isso pode me atrapalhar. É triste, mas é fato: olhando o lixão que não fechou ao longe, as casas quentes de tijolos à mostra, pensando nos transtornos urbanos que me invadem a reflexão e os dias, percebo que um enxame de civilização me deixou opaco, insípido, diminuto.

"Em resumo, para reaver a felicidade, é necessário regressar ao Paraíso - e ficar lá, quieto, na sua folha de vinha, inteiramente desguarnecido de civilização, contemplando o anho aos saltos no tomilho, e sem procurar, nem com o desejo, a árvore funesta da Ciência!" ('Civilização', Eça de Queirós).

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Primavera de 2014.

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