segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Do Casulo Banguense - Pingo


Há quem diga que Sócrates, o primeiro "filósofo" que mereceu esse nome, não existiu. Já ouvi a hipótese dele ser uma personagem criada por Platão para sua didática filosófica. Xenofonte e Aristófanes, de diferentes maneiras, também escreveram sobre o homem. No entanto, a dúvida de sua passagem pela terra persiste. 

Jesus. Também paira sobre sua existência uma dúvida insistente. Não bastasse ter sido citado em cinco documentos não-cristãos, ter dezenas de evangelhos e cartas cristãs descrevendo diversos eventos de sua vida, todos surgidos no século e meio após sua morte, com impressionante coincidência de fatos, ainda há quem creia que ele jamais tenha nascido, crescido e morrido - a ressurreição é questão de fé, evidentemente.

O mestre William Shakespeare. Escreveu dezenas de peças, inúmeros poemas, e pensa-se por aí: que ele jamais existiu e que se trata de uma figura inventada pelos dramaturgos do teatro elizabethano; que algumas tragédias a ele atribuídas foram escritas por autores populares desconhecidos; que ele roubava histórias de outros autores e depois levava a fama. Entre "O Mercador de Veneza" e "Rei Lear", há mais mistérios do que pode supor a nossa vã teimosia. 


No Catiri, e nos sub-bairros banguenses vizinhos, há décadas circula um sujeito chamado de "Pingo". Eletrotécnico ou mecânico industrial de formação, diz-se que já teve um bom emprego na metalurgia, família e filhos, casa e cachorro. De sotaque estranho, baixo e bigodudo, sempre com as mãos e roupas sujas de graxa, óleo ou resina, Pingo conserta de tudo nessas redondezas desde que me conheço como gente. Sempre tive por ele grande simpatia, especialmente porque em geral o encontrava "indo resolver alguma coisa", muito ativo e animado. 


Nos últimos anos, simplesmente o perdi de vista. Andei muito por aí, quando cá estou me isolo em casa, enfim. Nas últimas semanas, ando perambulando mais, por necessidade e distração. Ontem, revi o Pingo. Ar cansado, olhos astutos, mãos e roupas sujas. Estava sentado num porta-mala aberto de uma Belina. Como sempre, me viu, me sorriu e me cumprimentou: 


"E aí, Felipe. Como vai?" 

Uma nobreza singularíssima naquela imagem bruta. Mãos cheias de calos, pêlos e matéria ríspida. 

Não sabia que ele ainda vivia por aqui. Nem sabia que ele conhecia meu nome. Muito bom revê-lo, o mesmo, só mais grisalho - como eu. 

Um dia vou escrever algo sobre o Pingo, o homem que possui um passado cheio de disse-me-disse, que vive sozinho e que conserta coisas por aí. Lerão aquilo e, possivelmente, dirão que ele não existiu. Tudo bem, seu legado de gente boa vai ficar comigo, no esvoaçar do tempo e na contribuição aos trabalhos e às gentilezas da vida pequena.

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Outono de 2014.




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