sábado, 1 de novembro de 2014

Da Meritocracia




Até os dezoito anos, nunca precisou trabalhar para contribuir com qualquer gasto de sua casa, tampouco para comprar as coisas que o dignificavam entre os garotos de sua idade. Teve seus tênis com luzes que piscavam, seus jogos de tabuleiro, seus times de futebol de botão, suas roupas isentas de furos e das manchas onipresentes do cloro ou da água sanitária que teimavam em respingar nas bermudas e camisas da molecada – peças constantemente de molho nos tanques cimentados e bacias de alumínio, ou estendidas nos varais de nylon nos quintais e becos das casas da Rua Dois. Em dias de muito sol ou vento generoso, as roupas eram também estendidas sobre as casas com lajes de concreto, em cadeiras ou armadas em bambus, e de lá costumavam voar sobre outras casas, lajes e árvores vizinhas com muita facilidade. Em dias de chuva, as peças do vestuário de uso mais imediato eram presas no gradil sempre quente da parte de trás das geladeiras. No geral, os uniformes escolares que precisariam ser usados no dia seguinte, depois de lavados e ainda molhados, eram secos dessa forma ao longo da noite. O mais esquisito: àquela altura da periférica micro-história da Rua Dois, havia quem não tinha geladeira em casa, nem casa com laje, nem uniforme escolar. No quesito “não-ter”, havia de tudo.

Sua condição favorável lhe foi uma vantagem imensa nas consequentes descobertas e mesmo imaginações para uma possível vida futura. Teve mais tempo para ler, para divagar sobre os bichos da terra e do ar e sobre as plantas do jardim modesto de sua avó. Teve mais sossego ao dormir, fosse antes de um dia de avaliação na escola ou mesmo ali, no fim da terceira semana do mês, quando para os demais meninos a comida na despensa já se tornava escassa, e as famílias apelavam para carnes enlatadas ou dúzias de ovos conseguidas no fiado. Teve mais momentos com a mãe e irmãs, todos muito unidos pelo pequeno “bar & mercearia” tocado pelo pai – ex-vigia, capataz e motorista, sujeito de olhar rigoroso e voz de trovão, sempre presente no fornecer de sustentos e na exigência de uma vida viril, esperta e produtiva. Qualquer desvio nessa tríade de ensinamentos lhe aproximaria dos maiores estigmas da favela: viado, otário e vagabundo. Ignorando com facilidade os dois primeiros, lhe perturbava o terceiro. Tinha apreço pelo ócio, pelos deslumbres inconsequentes, pelo deixar para depois. Porém, a experimentação daquela vistosa vizinhança era sua atividade preferida. Saber aqueles, tê-los como companheiros, ser respeitado e admitido por eles como um igual era-lhe o mais rico e estimulante. Dada sua condição familiar privilegiada naquele restrito contexto de grandes esforços para mínimas posses, de gente com mãos calejadas e nucas agredidas pelo sol ainda na brevidade da vida, tornar-se um semelhante demandava alguma bravura e pés no chão, tanto na formação do caráter quanto na aperfeiçoamento das condutas. Concomitantemente, havia também satisfação, manifestando-se quase sempre nas partidas de futebol diárias e extenuantes, nas corridas alopradas das brincadeiras noturnas. Na liberdade desavergonhada de andar descalço pelas ruas em lama; de catar e colecionar maços de cigarro vazios e, com dois dados, fazer jogos de apostas com tais restos de vícios; de brigar com os garotos dos bairros vizinhos; de xingar quaisquer palavrões a qualquer tempo, ou ainda de ter a destreza de subir em árvores de tamanhos incríveis e pendurar-se de cabeça para baixo nas traves dos gols do campinho. Como se tudo fosse permitido, como se o medo fosse o único ilícito. 

E da vagabundagem de quem mais possuía naquele pouquinho de mundo, vieram as letras. Veio a ciência. Os currículos, os congressos, os escritos. Nunca passou um único dia em que não lhe soprasse na cabeça a ideia de que, se algo se desviasse no caminho – uma morte familiar, um acidente, uma violência inesperada e psicologicamente definitiva -, tudo poderia ser distinto, muito haveria de não ser vivido. Da tal meritocracia, então, quando lhe contam, lembra desse enredo repetido e pensa que só pode rir, se afastar ou dar um grito.

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Imagem retirada de: http://tinyurl.com/nvvrebh

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