sábado, 20 de dezembro de 2014

O Lado Norte do Maciço




Nem mesmo as canções do Roberto... Uma cidade de gente diversa demanda muitos lugares de características bem distintas, e o Rio é assim. A TIJUCA, pedaço generoso do Rio, também o é. A noite entre a floresta, as torres, favelas, túneis e viadutos que lançam os desavisados no lado norte do maciço não cansa de reinventar-se. Aquele era um novo local, descoberto quase por acaso entre amigos dos cursos de Humanidades. O povo das Exatas não gostava muito dali, preferia algo com mais burburinho, mais passantes desfilando, não era muito aficionado a mesas, músicas e bate-papos adornados por pernas de fora em roupas desbotadas e calçados encardidos. R. era desse tipo. Estando ali, procurava ser ativo nas conversas por vezes frívolas, nos muitos assuntos engajados e desconstruções de toda ordem, mas de um arrebatamento e aconchego desmedidos. Um gato perambulava entre as cadeiras, e todos os pés lhe eram mansos porque já lhe conheciam de outras noites ébrias. V. sabia das preferências do companheiro, mas supunha que aquele novo bar perto de casa – com cerveja gelada e barata, doses generosas de conhaque de baixa qualidade, ambiente anárquico, de um charme bem peculiar nas pinturas, canecas e ornamentação das paredes, uma raridade nessas ruas de oitis, cássias-rosa, figueiras e sibipirunas – pudesse revigorar aquele coração desassistido. Todavia, nem mesmo as canções do Roberto no aparelho que só tocava antiguidades puderam ajudar o rapaz...

“Ele não gosta da Tijuca, não gosta desse bar bonitinho, não gosta de nada”. R. nunca havia perdido o fôlego subindo a General Roca. Nunca sentou no meio-fio da Carlos Vasconcelos fitando cães e pimpolhos em passeio perto do rio. Nunca dispensou cansaços na Saenz Peña e seu laguinho. Não jogou bola no Batista, não desejou o Alto da Boa Vista, nem viu batizado na Igreja de São Francisco. Jamais beijou e sorriu na Xavier de Brito. Da Usina, coitado, sequer lembrava. Não sambou no Salgueiro, não aniversariou no Buxixo, nem madrugou na Muda. Achava que o Rio de Janeiro era um conjunto de vontades segregadas, soltas entre as rochas e o mar, pálidas quando além do Maracanã ou "do lado de lá". Mal sabia ele que por não rodar no Quinze, não beber direito e não saber se perder, perdia, de novo, a mais rica companhia desse antigo lote jesuítico. Não respeitou a Tijuca. Nem se deixou alcoolizar pelas suas muitas possibilidades de descer do play e abocanhar a rua. Do mesmo jeito que subiu a Barão de Mesquita, desceu a Conde de Bonfim para nunca mais voltar, nem mesmo se a rua Uruguai desembocar numa praia, nem se o America reencontrar os títulos, nem se o funk do Borel voltar a ser admitido.


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Imagem: Isabela Bastos / O Globo.


A Praça


Quando o calor vai estendendo dezembro, já não há mais candura em página alguma. A livraria era pequena e, apesar de bem cuidada diariamente, sentia-se no ar, que circulava por entre as estantes, escadas de alumínio e banquinhos de madeira, a secura da poeira trazida com o vento tímido da rua da Constituição. A expansão dos negócios na área da Praça Tiradentes trouxe consigo um vai-e-vem mais intenso de transeuntes e automóveis nas ruas do entorno. Trouxe também reformas aos sobrados, “recapeamento da massa asfáltica das vias” – como dizia a placa da Prefeitura -, e uma pasteurização na vida de quem não dorme cedo. Do passado recente, quando, por ali, viviam mulheres e travestis prostituindo-se, e catadores de papelão resignando-se, restaram a estreiteza das caçadas e o uivar de cachorros vadios, estes cada vez mais raros. A livraria tomou o lugar de uma serralheria que costumava servir aos demais comerciantes do Centro. Se o motivo da mudança foi o predomínio das prateleiras de plástico, o monopólio dos serralheiros da Gamboa e da Saúde nos negócios da região central do Rio de Janeiro, ou apenas a decisão onipotente do antigo artesão em encerrar sua vida entre tábuas ruidosas, fuligem e farpas cada vez menos incômodas em suas ásperas mãos, não se sabe. O que se evidenciava era a substituição de antigos e tradicionais comércios daquela outrora degradada área do Centro por atividades que complementavam o que, dia após dia, vinha ganhando destaque ao redor da praça: teatros, bares e restaurantes, casas musicais noturnas e centros culturais, hoteis, livrarias e antiquários, vida universitária durante o ano ativo, vida carnavalesca nos verões exaustivos e invencíveis.

“O Centro está mudando depressa”, pensa. Já não frequenta mais o bar da juventude mais bonita e interessante que esta cidade pode produzir. Ao longe – dos amigos, dos livros, do Centro –, ele já cansou de ler o mundo, já não quer mais expandi-lo, nem quer mais assisti-lo mudar tão abruptamente. Por dentro, ele quer voltar ao centro. Quer fazer novos amigos e beber o vento. Quer as cidades e as pessoas por perto, mas cada qual a seu tempo. Quer ter as livrarias de outros tantos sonhos que conversam com os dele como se fossem de mesma matéria, de igual incompletude, do mesmo maldito momento.


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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Quando as Cigarras Voltam





Todos os lugares podem ser identificados por suas paisagens, pelas formas de suas edificações, pelas silhuetas de suas vias, calçadas, praças. No entanto, alguns lugares vão além, e se caracterizam também por experiências sensoriais não-visuais, como suas sonoridades ou seus cheiros. Pense na Lapa numa noite de sexta, no Largo de Madureira depois das dezessete horas, e vai escutar esses lugares; ou na orla da Bica, Icaraí ou Copacabana, e as maresias e até o odor do pescado logo chegarão a você. Pois bem, além de sua paisagem para mim inesquecível, o lugar onde me fiz e moro é, e sempre foi, identificado por uma experiência já conhecida e bastante impositiva: o calor. Quando dezembro vai se abrindo, então, reconhecemos que ser banguense é saber adequar rotinas e paixões aos mais altos graus Celsius dessa urbe tropical.

Outro dia, sinalizei que as cigarras voltavam a ganhar o fim de tarde de onde moro. Ontem, quem retornou foi uma dessas intempéries semanais de todo verão: as quedas de energia. Com elas, voltam as andanças pela casa de madrugada, as garrafas de água no pé da cama, o banho gelado a qualquer hora do dia e da noite. Com as quedas de energia, penso logo que “pode ter sido linha de pipa”, e abro a janela, às vezes já no horário da novela, e vejo a molecada sobre as lajes “arrastando” ao longe, rebolando as rabiolas sobre copas das árvores e, inevitavelmente, sobre postes e a fiação elétrica. Catiços encantadores eles são!

Cabe tudo nesse calor. O asfalto, fervendo, desencoraja andanças, mas estimula “molhar a rua” acompanhando os constantes banhos de borracha, e as crianças ficam doidas nessa refrescância esbanjadora. Os almoços tendem a derrubar os gulosos no geladinho dos pisos de varandas, ou ainda sobre lençóis, pedaços de papelão e jornais em qualquer canto, mas também estimulam o retorno das saladas de alface, cenouras e beterrabas raladas no que parece uma aquarela de sabor, um franguinho magro com quiabo, os tomates frescos no azeite, a couve no alho, as corvinas e sardinhas ao forno... resolve-se a “lombeira” da tardinha assim! Junto destes, e nas frações de fome e sede de um dia corrido, as laranjas cortadas em quatro gomos, os sacolés de jaca, as limonadas em gelo e colher de açúcar, as rodelas de abacaxi em pratos na geladeira. 

Cães e gatos se escondem sob os carros, atrás das plantas, embaixo das marquises. Em qualquer pedaço de sombra já se encontra um bicho preguicento, uma tigela de água fresquinha, um repouso na existência. 

A beleza de Bangu é mais quente. Quando mancebo, o buço molhado das meninas e os cabelos presos em coque, em tranças, em rabos-de-cavalo caídos nos ombros, já me indicavam os rumos de uma estação que expande as gentes como expande as portas, e móveis, e azulejos que não cessam de estalar de madrugada. O frescor de sacos de gelo encostados nas dobras das pernas, na nuca e sobre os braços contrai o que antes estava dilatado, refaz o que antes se dissolvia nas miragens em névoas de sol, conduz a pressão cardíaca ao estímulo de sair de casa e ver a rua. 

Quando caem as luzes e voltam as cigarras, eu volto ao infantil corpo desidratado de tanto futebol entre amigos; retorno aos bichos de luz mergulhando atrás de seus reflexos em vasilhas d’água; avanço sobre o primeiro e desavergonhado sexo desassociado do tempo, da cama, do amor, pois não é possível romance no verão banguense, e os espasmos e urros escorregam entre barrigas e coxas aquecidas pelo mormaço dos desejos. Vou voltando, voltando, e me vejo às noites de sono ao lado de minha mãe, sob a amendoeira do quintal, engolidos pelo céu mais claro e gigante desse Rio de Janeiro bestial. Eu volto ainda mais um pouco, e sinto as enormes gotas de chuva levantando o bafo do chão, beliscando minhas costas, me fazendo correr para casa sem vontade nenhuma de chegar. 

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Imagem retirada de: http://tinyurl.com/kyhtz3e


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

"Não se mexa!"


Para mim, todos os elementos de vida e urbanidade periféricas estiveram presentes no dia de ontem.

Imensidão de gente negra com cores e cabelos diversos. Apartamentos replicados aos milhares em ruas desbotadas, com sutis adornos de flamboyants, mangueiras e amendoeiras. Mato nos cantos do cimento acinzentado. Moleque soltando pipa da janela, sol na cara, calor no dorso, olhos audazes. Samba atropelando o cotidiano, louvando etnias, resgatando Áfricas, instigando feriados, aproximando os sexos, calando os conflitos, dando força ao espírito. Jongo: iniciando os mais novos, encantando os antigos. Crianças soltas na terra do campinho. Cervejas sem fim, frituras também; grêmio recreativo mantendo orgulho e muros de trens fazendo reféns.

No escorregar da madrugada, uma rua larga e escura, casais se apertando, um muro alto de clube decadente, discussões na esquina, vida insegura, passos preguiçosos num caminhar de meio-fio. Vem um carro espertíssimo e saca um ferro automático. Rouba o laia-laiá, leva o balacobaco, ganha com estupidez o festejo, os contatos, os trocados.

Na delegacia, por fim, o triste resultado de quem jamais teve feriado: Maria da Penha, furtos esfomeados, drogas ilícitas e um punhado de ódio, de desdém, de nenhum cuidado – desde sempre, amém. O táxi ambicioso ainda tentou extorquir, mas este, felizmente, foi derrotado. Desarmei o frenesi dos ombros e dormi na graça do banho tomado.

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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Do Casulo Banguense - Frio


Em janeiro, o calor chega a derreter o asfalto. Em julho, o frio gela as orelhas, encolhe as plantas, abre o céu estrelado e faz descer o farto sereno que umedece a lataria dos carros e dos portões. De manhã, aos casacos e gorros e moletons, vai-se ao trabalho ou à escola acompanhando os rabiscos nos para-brisas e capôs: "Fulano ama Fulana", "Beltrano: julho de 2014", "Preciso ser lavado", "Deus te ama e eu também".

Reinventamos o calor e o frio. Nós, banguenses, somos os beduínos errantes do velho sertão carioca.

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Inverno de 2014.

Do Casulo Banguense - Planta


Há muito tempo, talvez um ano, meu pai plantou uma muda num desses vasos de barro que se coloca em quintais ou varandas. Essa planta é só mais uma entre tantas e tantas que meus pais colocaram em vasos no corredor que liga a entrada da sala ao portão. Esse pedaço da casa ficou com cara de sítio: denso verde, fresco, úmido, cheiro bom.

Pois bem. A tal planta cresceu absurdos, e para cima. Virou uma árvore "magrela", mas bem alta. Alcançou o pequeno terraço que temos aqui no segundo andar da casa, onde vivo.

Hoje, depois de muito tempo sem tomar sol no terraço para reanimar e tirar a preguiça, reparei que a planta não para de florescer e atraiu um monte de abelhas. Muitas mesmo!
De súbito, pensei: não bastassem as flores e folhas miúdas que o vento agora empurra para os cômodos do segundo andar, terei que conviver com abelhas?

É isso. É isso que se chama amargura. A natureza primaveril invade minha casa e a primeira coisa que penso é em como isso pode me atrapalhar. É triste, mas é fato: olhando o lixão que não fechou ao longe, as casas quentes de tijolos à mostra, pensando nos transtornos urbanos que me invadem a reflexão e os dias, percebo que um enxame de civilização me deixou opaco, insípido, diminuto.

"Em resumo, para reaver a felicidade, é necessário regressar ao Paraíso - e ficar lá, quieto, na sua folha de vinha, inteiramente desguarnecido de civilização, contemplando o anho aos saltos no tomilho, e sem procurar, nem com o desejo, a árvore funesta da Ciência!" ('Civilização', Eça de Queirós).

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Primavera de 2014.

Do Casulo Banguense - Pingo


Há quem diga que Sócrates, o primeiro "filósofo" que mereceu esse nome, não existiu. Já ouvi a hipótese dele ser uma personagem criada por Platão para sua didática filosófica. Xenofonte e Aristófanes, de diferentes maneiras, também escreveram sobre o homem. No entanto, a dúvida de sua passagem pela terra persiste. 

Jesus. Também paira sobre sua existência uma dúvida insistente. Não bastasse ter sido citado em cinco documentos não-cristãos, ter dezenas de evangelhos e cartas cristãs descrevendo diversos eventos de sua vida, todos surgidos no século e meio após sua morte, com impressionante coincidência de fatos, ainda há quem creia que ele jamais tenha nascido, crescido e morrido - a ressurreição é questão de fé, evidentemente.

O mestre William Shakespeare. Escreveu dezenas de peças, inúmeros poemas, e pensa-se por aí: que ele jamais existiu e que se trata de uma figura inventada pelos dramaturgos do teatro elizabethano; que algumas tragédias a ele atribuídas foram escritas por autores populares desconhecidos; que ele roubava histórias de outros autores e depois levava a fama. Entre "O Mercador de Veneza" e "Rei Lear", há mais mistérios do que pode supor a nossa vã teimosia. 


No Catiri, e nos sub-bairros banguenses vizinhos, há décadas circula um sujeito chamado de "Pingo". Eletrotécnico ou mecânico industrial de formação, diz-se que já teve um bom emprego na metalurgia, família e filhos, casa e cachorro. De sotaque estranho, baixo e bigodudo, sempre com as mãos e roupas sujas de graxa, óleo ou resina, Pingo conserta de tudo nessas redondezas desde que me conheço como gente. Sempre tive por ele grande simpatia, especialmente porque em geral o encontrava "indo resolver alguma coisa", muito ativo e animado. 


Nos últimos anos, simplesmente o perdi de vista. Andei muito por aí, quando cá estou me isolo em casa, enfim. Nas últimas semanas, ando perambulando mais, por necessidade e distração. Ontem, revi o Pingo. Ar cansado, olhos astutos, mãos e roupas sujas. Estava sentado num porta-mala aberto de uma Belina. Como sempre, me viu, me sorriu e me cumprimentou: 


"E aí, Felipe. Como vai?" 

Uma nobreza singularíssima naquela imagem bruta. Mãos cheias de calos, pêlos e matéria ríspida. 

Não sabia que ele ainda vivia por aqui. Nem sabia que ele conhecia meu nome. Muito bom revê-lo, o mesmo, só mais grisalho - como eu. 

Um dia vou escrever algo sobre o Pingo, o homem que possui um passado cheio de disse-me-disse, que vive sozinho e que conserta coisas por aí. Lerão aquilo e, possivelmente, dirão que ele não existiu. Tudo bem, seu legado de gente boa vai ficar comigo, no esvoaçar do tempo e na contribuição aos trabalhos e às gentilezas da vida pequena.

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Outono de 2014.




sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Miserere para um Clube de Regatas




Eles não querem falar do Flamengo... Eu quero, então. Vou falar porque, neste mundo de conflitos diários, de lutas incessantes pelo direito de existir e de se impor, o Flamengo me encoraja. Não pela sua imensa torcida, tão imensa que desconfio ser obra do demônio, mas pela sofreguidão de cada crente rubro-negro. É uma ânsia por imensidão, pelo tamanho de sua torcida, que faz com estes homens e mulheres que o querem com assiduidade, de todas as idades e lugares, se desconectem de qualquer traço de mediocridade. O Flamengo não é medíocre, jamais será. É um impulso existencial na vida de cada flamenguista ortodoxo e, por ser o clube mais agraciado pelos dinheiros e representações, também na vida de seus rivais, que acotovelados são por essa massa elétrica em procissão desde a primeira infância – ainda nas brincadeiras na rua, mesmo nas tardes do catecismo, sempre na correria imaginativa do pátio escolar onde todos deveriam professar o mesmo credo, e não o fazem.

Meu primeiro jogo do Flamengo foi em 1992. Fui levado pelo meu pai, botafoguense, para assistir a Campo Grande x Flamengo, no saudoso estádio da rua Arthur Rios, o enorme e pentecostal Ítalo Del Cima*. Aquilo era um evento único, com o ótimo time rubro-negro de então, campeão carioca e recém campeão brasileiro, perto de casa, na longínqua (e verdadeira) Zona Oeste carioca. Do alvoroço da chegada, com Fuscas, Del Reys, Opalas, Brasílias e Variants estacionando "à moda caralho" (piedade de nós!) na beira do rio que divide as mãos da rua, já me peguei surpreso pela astúcia do meu pai – impaciente e expansivo desde sempre – em nos livrar das filas e vendedores, das imagens e amuletos, infiltrando-nos com dois ingressos e um biscoito que parecia isopor pelo portão do estádio. (Aqui, uma pausa: coisa gratificante lembrar que fui iniciado no futebol ainda nos tempos de “estádios”, verdadeiros templos, e não dessas “arenas”, lugares profanados). Abobalhado que sou, passei todo o jogo reparando na liturgia do campo: nas redes dos gols, na entrada e saída dos juízes, nas placas de publicidade, na torcida enchendo a arquibancada de cimento, nos reservas aquecendo, no vai e vem dos vendedores de picolé e cerveja (sim, bebia-se de cálice cheio vendo jogo naquela época), nas crianças que passavam e me encaravam (porque, né, criança adora encarar outra criança). O Flamengo venceu por 3 a 0, não vi nenhum dos gols, tomei cinco tapas na nuca do pessoal ao meu redor, e a partir dali assimilei que deveria ser fácil ser rubro-negro: time de todo mundo, está sempre ganhando, moleza! Foda (piedade!) era ser Fluminense, e isso me tornava incrível, um místico. Fui para casa mais apaixonado por futebol e decidido a não me deixar envolver e abater pelo Flamengo. Cumpri, antes dos quinze, com um rigor de ermitão, as duas expectativas.

Passados mais de vinte anos, voltei a ir a um jogo por causa do Flamengo. Desta vez com irmã e sobrinho, rubro-negros, fugitivos de minha capela, entregues ao vício, enfeitiçados por esse oráculo. Era clássico, contra o Botafogo, no Engenhão (meio estádio, meio arena, lugar secularizado)**, e as filas para ingressos em preto e vermelho desanimavam. Fomos, pois, para as filas em branco e preto, e entramos com facilidade, o que não deixou de ser triste. Segundo tempo, Flamengo vencendo por um tento, e sua organizada mais conhecida, do lado oposto de nossos assentos (pois aquilo não é arquibancada), fazia uma festa desmedida, injusta, cruel. O sobrinho, batizando-se nessas idas e vindas atrás de marmanjos e bolas e gente histérica, cobria-se com o véu e as luzes do flamenguismo: afônico, perplexo, contentíssimo. Era a primeira vez desse João mais novo, e o Flamengo venceu. Ali, confesso, fui feliz pelo clube de Judas Tadeu, sem exigir nada em troca, apenas porque vi um garoto que é meio-eu entender-se em futebol, descobrir-se numa combinação de cores ímpares, assegurar-se que até o fim da vida é aquilo ali que ele vai defender com um ardor corânico, uma disciplina talmúdica, uma paixão evangelina.

Ainda não liguei para o João depois do que o ocorreu na última quarta-feira***. Muitos amigos, grandes amigos, andam caminhando de canto, fugindo do sol, escurecendo as vontades. Parece que deixaram de crer, nem velas querem mais acender. Tudo porque a queda de quem sempre quer mais alto chegou. O Flamengo é assim, oras. Não fosse, pelo tamanho da torcida que tem, seria medíocre, como tantos amores e crenças que desaparecem com a alvorada da razão. A queda sempre chega, ainda que se volte a subir, ela chega. É preciso ser imenso para admiti-la e tolo o bastante para fazer dela estímulo a um recomeço igual. E nós, futeboleiros, somos todos assim: tolos, insistentes, histéricos, penitentes, um bando de “João”. Flamengo, tua glória é lutar. Ainda que seja comigo, ainda que me trazendo desgosto, ainda que me roubando a descendência. Sigamos, rivais. Amém. 


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*Ficha do jogo: 
Campo Grande 0 x 3 Flamengo
Competição: Campeonato Carioca (Taça Guanabara)
Data: 03/09/1992
Estádio: Ítalo del Cima
Time: Gilmar, Charles Guerreiro, Gotardo, Rogério, Piá, Uidemar, Júnior, Júlio Cesar, Zinho (Marquinhos), Paulo Nunes (Marcelinho) e Gaúcho.
Gols do Flamengo: Júnior, Júlio Cesar e Gotardo.
Público: 8.127

**Ficha do jogo:
Flamengo 1 x 0 Botafogo
Data: 17 de fevereiro de 2013
Competição: Campeonato Carioca (Taça Guanabara)
Estádio: Engenhão
Time: Felipe, Léo Moura, Wallace, Marcos González e João Paulo; Cáceres, Ibson (Cléber Santana) e Elias; Carlos Eduardo (Rodolfo), Rafinha e Hernane (Igor Sartori).
Gol do Flamengo: Hernane.
Técnico: Dorival Júnior.
Público: 25.359
Renda: R$ 855.270,00


***Ficha do jogo:
Atlético-MG 4 x 1 Flamengo
Data: 5 de novembro de 2014
Competição: Copa do Brasil - Semifinal
Estádio: Mineirão - Belo Horizonte - MG
Time: Paulo Victor, Léo, Wallace, Chicão e João Paulo; Cáceres, Márcio Araújo, Canteros e Éverton (Mattheus); Nixon (Élton) e Eduardo da Silva (Luiz Antônio).
Gol do Flamengo: Éverton.
Técnico: Vanderlei Luxemburgo.
Público: 41.352 pagantes
Renda: R$ 4.615.660,00

Imagem retirada de: http://tinyurl.com/nln43vh


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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Foi Tiro




Era dia de Carnaval. E o paraquedas caprichosamente confeccionado com uma sacola plástica da Sendas e com fios de nylon de um saco de laranjas, preso a um soldadinho de borracha descia, lentamente e estufado pelo vento, sobre as dezenas de mãos da infância descamisada, suja e insistentemente feliz do sopé da Serra do Gericinó. As mães tricotavam queixumes e indelicadezas sobre as vidas pregressas de quem ali não estava, ao mesmo tempo em que bebericavam uma cerveja semigelada, refrescante, amarga e útil feito as manhãs imensas separando caroços de feijão no chão da sala, ao som do Chico, à luz do sol tímido de janela ornada. Era, insisto, dia de Carnaval.

Como que escapasse de um raio, o filho do Tião saltou na calçada, e, raspando-lhe a perna magra e arranhada de subida em galhos, passou um carro vermelho dirigido por uma bruxa. Lembro bem: não era clóvis, nem pai-joão, era uma bruxa. No banco traseiro, três bate-bolas. Janelas abertas, motor aos roncos, rasgaram a rua empoeirada rumo à cocheira lá no fim da vista, além da curva, depois da casa do Tião. Passaram pela roda de samba de fim de bloco e quase levaram o bumbo, quase bateram num muro, quase criaram tumulto. Mães e crianças, em susto, já se juntavam, e as vizinhas murmuravam especulações, “Mas como pode!”, “Logo hoje!”, “Esse bando de safados!”. Depois de um freio, uns tantos segundos, e os primeiros barulhos, secos e atravessados. "Foi tiro, hein" - alguém sugeriu. O tempo estancou. Os cães reclamaram. O povo na roda cadenciou. Logo em seguida, mais estalos: mais tiros. Correria e batidas de portão, olhos arregalados e puxões de camisas para dentro dos becos e vilas. O samba parou e o povo sumiu. E era, como disse, dia de Carnaval.

O ronco do carro na rua de trás denunciava a fuga. Tião vinha desassistido, pálido e cambaleando nas calçadas, sem força nas pernas e ébrio de dez horas, uma pena só. Coitado, ele podia mesmo beber litros: trabalhou no sábado e na segunda, e hoje, justo aquele hoje, Carnaval, mataram seu irmão numa covardia e tanto. Antes guardasse a bebida para a honra do defunto. Antes tivesse dado um gole ao santo.

“Eu sei quem é essa bruxa, essa desgraçada dessa bruxa....” – e caiu, se arrastando num poste pintado de verde-e-amarelo, sobre os cacos de ardósia que enfeitavam a entrada da pensão do quinze. O filho do Tião, escondido entre botijões de gás e cestas de pão-francês na casa do moço da birosca, nem viu nada. Ainda bem que levaram o menino para dentro e por lá desconversaram, colocaram o moleque na frente de uma Tv e lhe deram um copo de suco de manga-espada.  O Tião, coitado, perdeu um irmão num dia de Carnaval num acerto de contas. O filho do Tião, azarado, perdeu o padrinho tão novo sem nem se dar conta. Tião não chorou no enterro, não guardou as Cinzas, nem esmoreceu na quaresma. A Mocidade Independente venceu, enfim, e ele deu de ombros. Nem pareceu Carnaval. 

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Imagem retirada de: http://tinyurl.com/pybd7xy

sábado, 1 de novembro de 2014

Da Meritocracia




Até os dezoito anos, nunca precisou trabalhar para contribuir com qualquer gasto de sua casa, tampouco para comprar as coisas que o dignificavam entre os garotos de sua idade. Teve seus tênis com luzes que piscavam, seus jogos de tabuleiro, seus times de futebol de botão, suas roupas isentas de furos e das manchas onipresentes do cloro ou da água sanitária que teimavam em respingar nas bermudas e camisas da molecada – peças constantemente de molho nos tanques cimentados e bacias de alumínio, ou estendidas nos varais de nylon nos quintais e becos das casas da Rua Dois. Em dias de muito sol ou vento generoso, as roupas eram também estendidas sobre as casas com lajes de concreto, em cadeiras ou armadas em bambus, e de lá costumavam voar sobre outras casas, lajes e árvores vizinhas com muita facilidade. Em dias de chuva, as peças do vestuário de uso mais imediato eram presas no gradil sempre quente da parte de trás das geladeiras. No geral, os uniformes escolares que precisariam ser usados no dia seguinte, depois de lavados e ainda molhados, eram secos dessa forma ao longo da noite. O mais esquisito: àquela altura da periférica micro-história da Rua Dois, havia quem não tinha geladeira em casa, nem casa com laje, nem uniforme escolar. No quesito “não-ter”, havia de tudo.

Sua condição favorável lhe foi uma vantagem imensa nas consequentes descobertas e mesmo imaginações para uma possível vida futura. Teve mais tempo para ler, para divagar sobre os bichos da terra e do ar e sobre as plantas do jardim modesto de sua avó. Teve mais sossego ao dormir, fosse antes de um dia de avaliação na escola ou mesmo ali, no fim da terceira semana do mês, quando para os demais meninos a comida na despensa já se tornava escassa, e as famílias apelavam para carnes enlatadas ou dúzias de ovos conseguidas no fiado. Teve mais momentos com a mãe e irmãs, todos muito unidos pelo pequeno “bar & mercearia” tocado pelo pai – ex-vigia, capataz e motorista, sujeito de olhar rigoroso e voz de trovão, sempre presente no fornecer de sustentos e na exigência de uma vida viril, esperta e produtiva. Qualquer desvio nessa tríade de ensinamentos lhe aproximaria dos maiores estigmas da favela: viado, otário e vagabundo. Ignorando com facilidade os dois primeiros, lhe perturbava o terceiro. Tinha apreço pelo ócio, pelos deslumbres inconsequentes, pelo deixar para depois. Porém, a experimentação daquela vistosa vizinhança era sua atividade preferida. Saber aqueles, tê-los como companheiros, ser respeitado e admitido por eles como um igual era-lhe o mais rico e estimulante. Dada sua condição familiar privilegiada naquele restrito contexto de grandes esforços para mínimas posses, de gente com mãos calejadas e nucas agredidas pelo sol ainda na brevidade da vida, tornar-se um semelhante demandava alguma bravura e pés no chão, tanto na formação do caráter quanto na aperfeiçoamento das condutas. Concomitantemente, havia também satisfação, manifestando-se quase sempre nas partidas de futebol diárias e extenuantes, nas corridas alopradas das brincadeiras noturnas. Na liberdade desavergonhada de andar descalço pelas ruas em lama; de catar e colecionar maços de cigarro vazios e, com dois dados, fazer jogos de apostas com tais restos de vícios; de brigar com os garotos dos bairros vizinhos; de xingar quaisquer palavrões a qualquer tempo, ou ainda de ter a destreza de subir em árvores de tamanhos incríveis e pendurar-se de cabeça para baixo nas traves dos gols do campinho. Como se tudo fosse permitido, como se o medo fosse o único ilícito. 

E da vagabundagem de quem mais possuía naquele pouquinho de mundo, vieram as letras. Veio a ciência. Os currículos, os congressos, os escritos. Nunca passou um único dia em que não lhe soprasse na cabeça a ideia de que, se algo se desviasse no caminho – uma morte familiar, um acidente, uma violência inesperada e psicologicamente definitiva -, tudo poderia ser distinto, muito haveria de não ser vivido. Da tal meritocracia, então, quando lhe contam, lembra desse enredo repetido e pensa que só pode rir, se afastar ou dar um grito.

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Imagem retirada de: http://tinyurl.com/nvvrebh

 
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