Enquanto moço, perguntava se chegaria a tantas décadas. Sempre se viu como um semeador de ambições. Queria a vida aos montes, aos mares, aos horizontes. Falava de tempos futuros, de muitos passados; buscava e volvia; tramava e contava. Bebia um vinho qualquer e retrocedia. Era muito bom viver essa vida que não se gastava!
Com um sem-fim de livros, uma dúzia e meia de amores, três filhos no campo, mais dois na praia, sabia que não tinha muito adiante. Aceitava a sentença. Curiosamente, aceitava. Digo isso porque, somente quando a maturidade plena lhe chegou, no ponto em que um homem é ceifado pelo seu destino, começou a desconfiar dessa fome de mundo que o assolava na rotina. Achou a vida apressada, cheia de coisa, de ruído, de tumulto, de ruído que virava barulho, de tumulto que virava litígio, de desassossego que não tinha motivo. Parou de correr estrada, cansou de tomar partido. Saciou-se de tudo que já tinha sorrido.
Viu-se um homem de outros tempos, de outras épocas da civilização. Ora, seus contemporâneos ainda queriam mais, aprendiam mais, vislumbravam outros vendavais. Ele já queria brisa, já queria tarde mansa, sossego nos pés, encosto para a cabeça. Já não tinha medo de nada mais, miséria já não havia. Queria saber o que vem depois, já queria saber se havia uma varanda na morada do céu. Queria saber se o tempo corre mesmo depois, se mesmo depois deste tempo correria outros tempos mais. E se corresse, que tempo seria esse? Por quanto tempo correria então? Pensamento difuso e coração aconchegado, mesmo na certeza de um breve tempo presente.

1 comentários:
Adoro!
Sutil, denso e intrigante...
Um abraço,
Ana Carolina
Postar um comentário