terça-feira, 26 de abril de 2011

Fluviosidades


Os rios... Servem vida às urbes! Fazem um rumo há tempos e bebem neve e açudes. Guardam, beijam, brincam e espalham as luzes. São mais valentes do que muito eu vejo, são valorosos se nos lembram o Tejo. São celebrados se castelos há, como o Danúbio e como o Loire. Até se enchem por onde a margem quer, como o Amazonas e o Yang-Tsé. E nos permitem um viver sorrindo, e dizendo isso eu lembro do Volga, do Congo, do Ruhr e do Indo.

Eu lembro dos gigantes pelos quais passei, como o Uruguai, o Doce, o Prata e o Velho Chico. Na beira de um rio é tudo tão... tão... sei lá, tudo tão rico. Como se irrigassem não só a terra, mas os tipos. Os rostos e os mitos. Não há um rito molhado num rio que não me interesse. Não há pedra arredondada por um desses cursos misteriosos que não faça um dia mais bonito, que não mereça uma prece. Um Mississipi engulo quando vejo um batismo de um sujeito místico. Um belo quadro de sala é uma ponte em forma de arco, sobre o Douro ou sobre o Pó, do mais bruto e trabalhado granito.

Coisa boba se encantar por choro de morro, por resto de chuva, por essa coisa que dá peixe, limo e lavação de vestido. Sangria do ventre do mundo que dá viagem ao caboclo, que dá sustento à floresta, que tem o mar por destino. Coisa linda deve ser o Nilo, e um ribeirinho sabe mais que isso. Que me perdoem os planaltos, mas prefiro os vales sinuosos, de meandros esquisitos. Gosto do meu Rio de ruas fartas e dos demais que riscam os mapas da civilização, vagarosos ou intensos, navegáveis e limpos. Gosto do balançar de uma beira mansa, que mata a sede de um maltrapilho cão. Gosto dessa besteira de ter com um fluxo de água e o chão esse olhar de garoto, brilhante e raro, como o tão almejado ouro de aluvião.

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