Outro dia encontrei num sebo um livro que há muito procurava. Estava intacto, limpo, por um bom preço, uma sorte grande! Como na prática da leitura vadia sou um aficionado, feito um desses espanhóis ensandecidos que não perdem uma tourada, devorei o tal livro num dia e meio, atravessando duas madrugadas e me valendo de sucos e de sanduíches de quaisquer conteúdos: margarina, geleia de amora, atum, azeite... Isso mesmo, sanduíche de azeite. Não só para dar vivas às minhas raízes mediterrâneas, como as do autor lido. Nem porque, quando faminto, ignoro qualquer perícia culinária. Mas porque as páginas não podiam esperar, e o azeite derrama-se rápido no miolo do pão dormido e despedaçado. Seu sabor e preparo não perturbam o imediatismo exigido pela ocasião, onda empolgante que jamais poderei desdenhar.
Nestes dias, no conforto do frio, com sanduíches ou não, teria que ler os funcionalistas, os estruturalistas, a compreensão, a crítica, a interpretação, os sistemas, as distinções, as lutas e os processos. Teria. É tanta falta de apego a esses debates ordinários que nem me culpo por tê-los encostado no canto do quarto, perto das roupas sujas e dos extratos bancários. É muito debate para tão poucos suspiros. É muita frieza para o meu peito bravio.
No entanto, essa conversa de que o amor acaba, que felicidade é planejamento, que pau que nasce torto não se endireita, que empate é bom resultado, também não me cativa. Tampouco me aborrece, devo confessar. Eu jogo no time onde o improviso vive salvando as coisas eternas. Onde a maleabilidade da mente e das emoções transfigura qualquer apatia, feito uma ginga de corpo de um artilheiro inspirado nas proximidades do gol. Não dou a mínima para ‘maximização dos ganhos’, ‘pró-atividade dos labores’, para a ‘regularidade dos horários’. Em pratos limpos? Ando me lixando para a saúde da vida matinal, para o futuro profissional, beijos sem paixão e o meio-campo da seleção. Ando disposto, até mesmo, a dispensar o Rio de Janeiro, meu casulo, que segue sendo um palco tropical, tão sem graça nestes dias sem calor, para os dramas dessa gente parecida e covarde que me cerca e que não me convence...
Que São Sebastião, mandatário dessas paragens, me entenda e perdoe, e que a força de sua proteção me ajude a eliminar os resquícios de pouco caso com as vivências realmente indispensáveis. (Se ele morreu ou não com os braços erguidos e as flechas encravadas na carne, daquele jeito que a imagem exibe, não me importa, mesmo). Tenho muito o que fazer nesse outono que vai passar num piscar de olhos. "O resto é silêncio", como diria o romancista.
Nestes dias, no conforto do frio, com sanduíches ou não, teria que ler os funcionalistas, os estruturalistas, a compreensão, a crítica, a interpretação, os sistemas, as distinções, as lutas e os processos. Teria. É tanta falta de apego a esses debates ordinários que nem me culpo por tê-los encostado no canto do quarto, perto das roupas sujas e dos extratos bancários. É muito debate para tão poucos suspiros. É muita frieza para o meu peito bravio.
No entanto, essa conversa de que o amor acaba, que felicidade é planejamento, que pau que nasce torto não se endireita, que empate é bom resultado, também não me cativa. Tampouco me aborrece, devo confessar. Eu jogo no time onde o improviso vive salvando as coisas eternas. Onde a maleabilidade da mente e das emoções transfigura qualquer apatia, feito uma ginga de corpo de um artilheiro inspirado nas proximidades do gol. Não dou a mínima para ‘maximização dos ganhos’, ‘pró-atividade dos labores’, para a ‘regularidade dos horários’. Em pratos limpos? Ando me lixando para a saúde da vida matinal, para o futuro profissional, beijos sem paixão e o meio-campo da seleção. Ando disposto, até mesmo, a dispensar o Rio de Janeiro, meu casulo, que segue sendo um palco tropical, tão sem graça nestes dias sem calor, para os dramas dessa gente parecida e covarde que me cerca e que não me convence...
Que São Sebastião, mandatário dessas paragens, me entenda e perdoe, e que a força de sua proteção me ajude a eliminar os resquícios de pouco caso com as vivências realmente indispensáveis. (Se ele morreu ou não com os braços erguidos e as flechas encravadas na carne, daquele jeito que a imagem exibe, não me importa, mesmo). Tenho muito o que fazer nesse outono que vai passar num piscar de olhos. "O resto é silêncio", como diria o romancista.
**** *** ** *** ****
Terceiro texto da Trilogia do Outono.

7 comentários:
Aos curiosos: o livro chama-se "Futebol ao Sol e à Sombra", de Eduardo Galeano, famoso e genial escritor uruguaio.
Altamente recomendável, mesmo para quem não gosta ou não sabe nada sobre futebol.
É um louvor à essência desse esporte, um resgate maestral de todos os personagens e sentimentos que compõem esse jogo magnífico, que sempre reatratou a vida e a História.
Adorei a presença fascinante da geléia (queensbary?)!
Sobre se danar a saúde matinal, que parte disso é confissão? Já está dado hahaha...
E ah... os "ismmos" causam frisson sim, arrepiam a alma!... tem certeza que não?
Adorei sua trilogia!
Adorei o seu texto! :)
Você ...intenso, como sempre!
Li o livro de Galeano ... rs .. esse que citou .. leio tudo dele e sobre ele.
Ah, eu tbém adoro pão dormido com azeite. rs
“O que me parece belo, o que eu gostaria de fazer, é um livro sobre nada, um livro sem vínculos exteriores, que se sustentaria pela força interna de seu estilo, assim como a terra se sustenta sozinha no ar, um livro que pudesse quase prescindir de tema, ou pelo menos, em que o tema seria quase invisível, caso isso seja possível. As obras mais belas são aquelas onde há menos matéria (...), pois o próprio estilo é uma maneira absoluta de ver as coisas.”(Flaubert, Correspondances, carta a Louise Collet).
Você me parece um "apaixonado poeta" ou "poeta apaixonado" dos bons.Me identifiquei com o depoisestudoestruturalismo.
compartilho do desdém. alias, minha citação do momento é: "Há aqueles que comem muito [como porcos] e outros que como eu nao podem mais comer sem escarrar". (Artaud em Obras Completas).
Não só é falta de apego, desdém. Quando isto se impõe como obrigação, eu escarro.
Um ode aos bons romances, às fortuitas sensações e a tudo aquilo que escapa às representações, interpretações e esquemas destas ordinárias ciências sociais. salvadores de almas [pelo menos da minha].
Eu quero as "vivências realmente indispensáveis" tbm.l
"os dramas dessa gente parecida e covarde que me cerca e que não me convence"
vesti a carapuça.
Postar um comentário