Não entendia como o Sporting pôde perder outra vez. Ajeitando os ovos no canto do balcão como se fossem bibelôs na mesa da sala, ou varrendo a frente do recinto quase como quem esperasse hóspedes, e não fregueses, ordenava seu mundo com o esmero de quem nasceu em outra época, onde as coisas duravam mais e as pessoas se cumprimentavam com gosto, e não por obrigação. A poeira levantava do piso grosso de cimento vagabundo. Com um enorme regador, aliviava o mormaço molhando as calçadas e também as plantas - uma espada de São Jorge, hortelã, comigo-ninguém-pode e uma samambaia chorona. Todo começo de dia era assim. Se espreguiçava a ponto de aparecer o umbigo sob a camisa de botões, e logo em seguida se ajeitava numa cadeira de plástico para ler o jornal, o mesmo de sempre, há mais de trinta anos. Como era baixinho, seus pés não encontravam o chão. Ficavam largadas, então, as sandálias de couro, dessas de enfiar o pé com os calcanhares soltos, moídas e gastas pelo tempo, mas tão confortáveis quanto um abraço dos netos numa tardezinha de frio.
Passava a mão nos finos cabelos brancos a todo instante, retirando-os da testa, já salpicada com o suor das onze da manhã. Anotava os fiados num caderno em frangalhos, e cada freguês tinha um apelido – ele não gostava que sua senhora espiasse os débitos dos amigos. Gostava de suco de maracujá e guaraná. Mastigava castanhas o dia inteiro e, três vezes na semana, pedia ao peixeiro que passasse por ali, ele então decidia entre o xerelete e o namorado, a corvina ou o peixe-galo. Fazia tira-gostos para os parceiros de dama e não aceitava cigarros perto do tabuleiro. Tinha saudade de Guimarães, do vinho da quinta do galego. Lá uma vez ou outra chorava escondido, porque nunca teve coragem de voltar. Fez os filhos torcerem pro Vasco, reunia-os em casa todo dia das mães e gostava da rua ornamentada em junho, para as festas de Santo Antônio e São João.
À noite, quando não via o futebol, sentava no portão e por ali ficava, de papo com o vizinho, acariciando o vira-lata que azucrinava o dia todo no quintal, vendo as modas passarem. De vez em quando passeava com sua senhora. Caminhavam devagarinho, sem pressa de chegar, até porque, geralmente, não iam a lugar algum, só caminhavam, juntinhos, de mãos dadas, falando pouco, vendo a gente passar e passar. Tinha medo de caminhões e de motocicletas, achava-os incontroláveis e muito perigosos. No domingo, depois da missa, visitava a filha a duas quadras da Igreja. Levava um dinheirinho pro menino, uma bobeirinha qualquer pra menina e contava para o genro as piadas que aprendia no balcão do armazém. Tinha tanto gosto por essa vida que sentia pena de si por um dia ter que morrer e deixar tudo isso.
Rezava o terço quando lembrava da mãe, soltava uma risada quando era a vez do pai. Não tinha pena de gastar na hora de escolher um bom vinho e uma boa garrafa de azeite. Ouvia música popular num radinho fm e tinha preferência por Eça de Queirós nas leituras dos momentos vazios, por se tratar de um autor que remetia à sua infância no colégio.
Tinha uma saudade do tamanho de muitas décadas. Nunca voltara a Portugal e não escondia de ninguém essa amargura. Era um homem de coração simples, de hábitos singelos. Um homem que dividiu sua vida entre antes e depois do além-mar. Um homem que fazia até os que não o conheciam percebê-lo. Uma dessas pessoas que quase não existem mais, dessas que parecem carregar na existência os fundamentos de tudo o que ensinaram pra gente sobre isso que chamamos de vida.
E vamos Sporting, vamos jogar com mais paixão no relvado!
Passava a mão nos finos cabelos brancos a todo instante, retirando-os da testa, já salpicada com o suor das onze da manhã. Anotava os fiados num caderno em frangalhos, e cada freguês tinha um apelido – ele não gostava que sua senhora espiasse os débitos dos amigos. Gostava de suco de maracujá e guaraná. Mastigava castanhas o dia inteiro e, três vezes na semana, pedia ao peixeiro que passasse por ali, ele então decidia entre o xerelete e o namorado, a corvina ou o peixe-galo. Fazia tira-gostos para os parceiros de dama e não aceitava cigarros perto do tabuleiro. Tinha saudade de Guimarães, do vinho da quinta do galego. Lá uma vez ou outra chorava escondido, porque nunca teve coragem de voltar. Fez os filhos torcerem pro Vasco, reunia-os em casa todo dia das mães e gostava da rua ornamentada em junho, para as festas de Santo Antônio e São João.
À noite, quando não via o futebol, sentava no portão e por ali ficava, de papo com o vizinho, acariciando o vira-lata que azucrinava o dia todo no quintal, vendo as modas passarem. De vez em quando passeava com sua senhora. Caminhavam devagarinho, sem pressa de chegar, até porque, geralmente, não iam a lugar algum, só caminhavam, juntinhos, de mãos dadas, falando pouco, vendo a gente passar e passar. Tinha medo de caminhões e de motocicletas, achava-os incontroláveis e muito perigosos. No domingo, depois da missa, visitava a filha a duas quadras da Igreja. Levava um dinheirinho pro menino, uma bobeirinha qualquer pra menina e contava para o genro as piadas que aprendia no balcão do armazém. Tinha tanto gosto por essa vida que sentia pena de si por um dia ter que morrer e deixar tudo isso.
Rezava o terço quando lembrava da mãe, soltava uma risada quando era a vez do pai. Não tinha pena de gastar na hora de escolher um bom vinho e uma boa garrafa de azeite. Ouvia música popular num radinho fm e tinha preferência por Eça de Queirós nas leituras dos momentos vazios, por se tratar de um autor que remetia à sua infância no colégio.
Tinha uma saudade do tamanho de muitas décadas. Nunca voltara a Portugal e não escondia de ninguém essa amargura. Era um homem de coração simples, de hábitos singelos. Um homem que dividiu sua vida entre antes e depois do além-mar. Um homem que fazia até os que não o conheciam percebê-lo. Uma dessas pessoas que quase não existem mais, dessas que parecem carregar na existência os fundamentos de tudo o que ensinaram pra gente sobre isso que chamamos de vida.
E vamos Sporting, vamos jogar com mais paixão no relvado!

3 comentários:
Ora pois, pois... Esse rapazinho me encanta. Saudades imensas...
Vick =)
Se cuida, viu? =)
Estava em dívida com a minha leiturinha... Esse texto foi bem a meu gosto, como dizem os portugueses, me sabe bem.
Ah que saudade de muitas décadas tenho eu e vou matá-las!
Muito lindo, muito lindo, muito lindo viajar assim pelas palavras...
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